O Mundo Onde Vivemos
"...seu coração só, não pode conter todo esse espaço vazio..."

Atualidade, 23 de dezembro. Costumávamos passar o dias de inverno dentro de uma pequena choupana na floresta. Com montanhas sempre cobertas de neve, víamos antílopes se alimentando de pequenas folhas e corvos pelo céu. Escutávamos o riacho que havia por perto, junto da brisa que vinha entre os pinheiros. Sempre vim por ser um tanto frio. Creio que, sua falta me casou a isso. Adorava a forma como seus dedos tocavam aquele velho piano. Quando criança, era muito de meu costume me perder naquele cenário. Alguns lugares eram assustadores. Mas você sempre me deu forças.. Me lembro de quando acabei me perdendo naquele vilarejo abandonado. Aquelas casas de madeira.. Velhas e sujas.. E o barulho dos corvos não ajudava muito. Só de lembrar eu me arrepio. Mas hoje, com meus vinte e oito anos, não sei se isso é problema.
Desço do táxi, e piso em algo estranho. Quando tiro o pé de cima, vejo uma mulher em um plástico sorrindo de orelha-orelha segurando um creme de beleza, e isso me desaponta. Puxo suavemente para cima o zíper de minha blusa, e aperto meu cachecol. Dessa vez, deixo minhas coisas no hotel. Não acho provável nossa velha choupana estar intacta. Faz tanto tempo.. Coloco minhas mãos no bolso da calça, e continuo meu caminho.
Ainda me lembro desse silêncio, desse clima nublado. Andávamos de mãos dadas aqui. Você me mostrava o quanto a floresta era linda; o quanto o céu era azul; o quanto o ar era puro. Mas hoje já não é mais assim. Ouvi um rumor de que construíram fábricas pela região. Não é tão difícil encontrar lixo por aqui agora. Após andar alguns minutos pela estrada, entro em uma estreita trilha entre as árvores. Cantarolando Videotape do Radiohead, observo algumas árvores caídas no caminho. Me encolho com dificuldade e tento passar entre elas. Consigo sair do outro lado, mas acabo tropeçando. Lentamente me levanto, puxo minha blusa de lã presa em um dos galhos, e tento tirar um pouco de neve da minha perna. E lá estava a choupana. Tudo o que escuto, são meus passos na neve, com algumas folhas. Chego mais perto, e me desanimo ao ver que ela não é mais a mesma. A porta está toda partida. Entro e percebo o quanto este lugar mudou. Caem gotas geladas do teto, e o chão está completamente sujo. Há alguns gravetos pelo chão, algumas folhas, e muito barro. Provavelmente algum cervo idiota deve ter feito a festa aqui. Vou até a velha lareira, e levo um susto: um corvo enorme e barulhento sai de lá de dentro, voando pela cabana como se estivesse preso. Vou até uma das janelas para abri-la, mas quando estou cometendo o ato, o simples ato de abrir a velha janela, a madeira se parte e cai do lado de fora. Desisto.
Saio, e fico observando o cenário. Há muito lixo aqui. Plásticos e objetos velhos e quebrados por toda parte. Quando volto o olhar para a cabana, me sinto mais forte, e lembranças aparecem em minha mente. De quando você me contava histórias antes de dormir. Ou quando observávamos o dia passar. Subíamos no alto da colina, você me pegava no colo, apontava para o horizonte das montanhas e pinheiros, então dizia: "Filho.. Esse.. Esse é o mundo onde vivemos." Após relembrar esta frase, decido reviver o momento. Aos poucos tento me lembrar do caminho que fazíamos para ir até o topo. Subo por uma larga escada de pedra, e sem que eu perceba, piso em algumas partituras. Lá estou eu. Mas o que estou fazendo...? Como pude achar que poderia reviver esse momento? Não, sem você aqui não dá. Fico parado por alguns instantes. Está nevando forte agora. Me ajoelho, me sentindo fraco. Observo lentamente o horizonte. Esse é o mundo onde vivemos.. Tsc, esse FOI o mundo onde vivemos. Sem você mudou muita coisa. Às vezes sinto a mim mesmo sendo preso. Olho para meus joelhos, há uma partitura. Delicadamente eu a pego, e reparo no que está escrito. "PAZ E AMOR, ALÉM DAS ESTRELAS". Está um pouco molhada, então suavemente eu a dobro, e guardo no bolso da minha calça. Me levanto devagar, olhando para as montanhas. Desço as escadas cabisbaixo, e pego as outras partituras. Caminhando, encontro as velhas rochas pelas quais brincávamos de esconde-esconde. Havia um buraco enorme que atravessava uma delas, se estou certo, brincávamos com ele. Você se sentava, e contava pequenas histórias. E eu sempre percebia o quanto você era linda. Quando me dou conta, a velha cadeira ainda está lá; mas suja, e com a madeira vergada. Eu a pego, e caminho por mais alguns metros. Às vezes, me sinto como se fosse a primeira vez que estou passando por ali; Como se fosse a primeira vez que vejo aquela rocha, ou aquele corvo. E eu me pergunto: Por que você tinha de abandonar esse dia e era? Bem, eu sempre estive enganado, sempre fui um adolescente idiota com você. Mas de qualquer forma, lições aprendidas e que as rodas voltem a girar. Chego a um campo; lembro-me que, na primavera jogávamos discos aqui. Coloco a cadeira exatamente no centro, e me sento; aonde todas as árvores me observam. Eu gostaria de ter tido a chance de te pedir desculpas. Sobreviver por uma semana, hoje em dia é difícil. Abençoe seu corpo e alma, enquanto por aqui rezo por paz e auto-controle. Gostaria de pensar que as garotas que sobem a rua são inocentes e doces. Gostaria de pensar que Hollywood Hills sempre foi a mesma. Gostaria de ver você novamente. Cruzo as pernas e fixo meu olhar para o chão. Isso me faz refletir sobre o quanto, o quanto eu quero rolar por aí como uma criança na neve; O quanto eu quero reaprender o que eu já sabia; O quanto eu quero te desejar um feliz natal; O quanto eu quero voltar. Garotos de hoje em dia saem nos fins de semana procurando por garotas, não por apenas uma garota. Todos sabemos que o que era lindo se foi e restou a paixão. As pessoas sujaram o sentimento mais puro. E por isso estive torturando meu cérebro com pensamentos de paz e amor. Como foi que nós nos tornamos tão confusos? Eu peço a Deus para que isso não dure muito tempo.
O que acabo de pensar, gera uma raiva interna. Uma dor vazia no fundo buraco do meu peito parece estar se aprofundando mais. Me levanto da cadeira, e a chuto para o chão. Ela cai por alguns metros, e quebra uma das pernas. A neve que antes estava chuviscando, agora sumiu. Está ventando como nunca vi antes. Suavemente jogo meus cabelos para trás, e pego uma das partituras. Nesta, leio como título "JUNTOS PARA SEMPRE". Após ler isso, me sinto mais fraco do que já estava. Uma dor imensa ocorre em meu peito e meus olhos começam a lacrimejar. De repente, uma série de pensamentos invade minha mente. Sua classe, seu dinheiro, o nome de sua tribo: É o que o mundo quer saber. Muitas pessoas morrem apenas para manter o dinheiro vivo, e não se importam se seus corpos estarão em decomposição nos próximos anos. A Bíblia está cega, o Torá está surdo, e o Alcorão mudo. Se lê-los e queimá-los todos juntos estará perto da verdade. Um homem com seu coração só, não pode conter todo esse espaço vazio. Ele quebra, se parte. Todos esses anos venho tentando, sou forte o bastante para superar perdas? Os dias só escorregam e deslizam como sempre fizeram. O problema é que meu coração nunca me deixará esquecer. Preciso botar meus pés no chão, eu sei que posso melhorar com o tempo. Mas você se foi, e isso me faz pensar em mim. Com todas as coisas erradas que fiz, se eu soubesse a resposta, se mudasse meu modo de vida, e pavimentasse minhas ruas com boas lembranças, será que esse buraco se fecharia? E se todos os nossos dias estão contados, então porque eu continuo contando..?
Embaixo desse céu, ainda me sinto preso. Não vai ter próxima vez.. Uma tempestade despejou sua água fria e cortante em cima de mim. Se esse é o mundo onde vivemos, então ainda espero por algo real. Sem você os sonhos se foram; Sem você as garotas inocentes dessa história morrem; Sem você os campos não crescem, e sem você os pássaros não cantam. Não sei por quanto tempo levarei essa culpa. Não sei.
Caminho de volta para a cabana. Pego exatamente tudo o que era importante à mim, e à você. Ao sair, a observo antes de partir. Desta vez, por um bom tempo. Olho ao meu redor, e suavemente viro meu rosto contra o cenário. Olho para o céu azul nublado. Olho para o chão, e vejo que há algo preso no meu pé. Vagarosamente me abaixo e retiro de embaixo dele uma foto. Nela, vejo você sentada de costas ao piano, e a mim do seu lado - olhando para a câmera. Com tudo o que passei ao seu lado, posso dizer que foram bons momentos. Vou sentir sua falta.
Dobro-a delicadamente e a guardo no bolso da blusa. Caminho até a trilha, de volta a estrada. Ando por alguns quilômetros, não estou preocupado pensando em quanto tempo chegarei no hotel, ou se meu patrão passou a tarde ligando pra mim. Chego a uma ponte, tenho a visão de toda a floresta e suas montanhas. O dia está passando, e continuo aqui. Me apoio no guarde reio, e fico observando a paisagem. Acho que o mundo ainda pode esperar.