-Depois de muita deliberação, o "ceguinho", ou devo dizer, "demônio", aceitou o desafio. Chamo os executores da pena. Billie Dahlén, e Juan Gaarder. Podem começar.
Após isso, Steve foi para o centro do ringue, e os garotos já estavam com os punhos fechados, e a expressão em seus rostos era a de que já iriam vencer.
-Tenho uma pergunta simples em relação às regras. Tenho que fazer os dois rastejaram pelo ringue, ou basta um? -perguntou Steve.
-Acaba quando rasteja. -respondeu Karl, sorrindo.
-Ótimo. Mais uma pergunta. Posso bater o quanto quiser?
-Lute. -disse firmemente o orgulhoso.
-Pensei muito em você, Dahlén. Vou quebrar seu nariz. -ameaçou Steve. E você..? É destro ou canhoto? -perguntou ao outro garoto.
Em tom de deboche, o garoto respondeu apenas com as mãos entre as pernas. E a platéia riu.
-Destro. -respondeu.
-Certo. Vou quebrar seu braço esquerdo até o cotovelo. -disse Steve, com os olhos fixados nos dois, junto com os punhos fechados pelo ódio.
-Cão que ladra não morde, demônio. -debocharam, e colocaram-se em defesa com os braços.
Steve os encarou por exatamente três segundos. E num movimento único, chutou Juan entre as pernas, que se abaixou, remoendo-se. Após isso, acertou em Billie uma cotovelada, que o derrubou. Enquanto Juan estava abaixado, agonizando, Steve o levantou com um murro no rosto, e o derrubou. Virou-se para Billie, que estava se levantando. Chutou-o, e o garoto caiu novamente. Todos olhavam assustados, inclusive Karl. Não haviam torcidas, estavam todos em silêncio.
-Falamos do nariz, não foi? -disse Steve, dando-lhe um murro certeiro na cartilagem de Billie. Que se virou, sangrando.
-Agora é seu braço. -disse, dirigindo-se para o outro garoto, colocando o pé no cotovelo, e ameaçando puxar o braço para trás.
-Por favor! -gritou desesperadamente Juan.
Após isso, Steve, de pé, soube que era hora de acabar. Ordenou que rastejassem.
-Rastejem! -disse para os dois. Dirigiu-se a Billie, e continuou. -Rasteje seu verme! Vamos! -completou, chutando-o. Então, alguns garotos os rastejaram para fora. O desafio estava concluído. Steve virou-se para Karl, que estava espantado. Apontou o dedo indicador para o garoto, com um olhar agressivo. E Karl, mais assustado ainda, recuou. Determinado, Steve se virou, e saiu do local. Estava ansioso para cumprir sua "detenção domiciliar". Dirigiu-se à estação, e entrou no trem.
Em quase 30/40 km por hora, o trem avançava as estações, e Steve estava ansioso. Gostaria de conversar com Mary, sobre o que pretendia fazer. Alguns minutos depois, ao chegar na estação, seguiu direto para o hotel. E o dia estava se escurecendo. Ao entrar no velho local, percebeu que estava vazio. Não havia ninguém no balcão para atendê-lo. Tocou o sino do balcão algumas vezes, mas não obteve resposta. Chamou por Mary algumas vezes, mas sua única resposta foi o silêncio. Um tanto decepcionado, caminhou para fora do hotel. Foi até o grande campo de trigo, e por lá caminhou por alguns minutos, quando a viu, no alto da planície, sentada abaixo de uma árvore, o garoto se animou. Ao chegar ao seu lado, chamou-lhe a atenção da garota:
-Olá, senhorita.
Num movimento desesperado, a garota rapidamente escondeu algumas folhas de papel no bolso.
-Ah, oi Steve.. Tudo bem com você? Não sabia que viria para cá hoje. -disse, envergonhada.
-Não sei, e você? -respondeu, sentando-se ao lado dela.
-Como não sabe? -ela disse, sorrindo.
-Depende, se você estiver bem, eu vou estar! -ele respondeu, sorrindo.
-Bem, então acho que posso dizer que sim.
-O que houve com o hotel? Por que não havia ninguém lá? -perguntou.
-Meus pais deram uma saída, e resolvi vir pra cá. Por aqui é tranqüilo, sabe? Não há com o que se preocupar.. -ela disse, cutucando os cadarços do tênis.
Ele simplesmente acenou com a cabeça. Esticou o braço entre os ombros da garota, e ali se acomodaram. Até que Steve resolveu iniciar o assunto.
-Como eu disse certa vez... -iniciou. E a garota o observava, enquanto falava. -Há muito preconceito naquela escola. E Karl não pode continuar assim. Já fui humilhado o suficiente. Por isso preciso de ajuda com o Passe Adiante. E minha idéia, é dialogar com todos os que foram humilhados. Mas também há o reitor, não sei como poderia dar um jeito nele.-terminou.
-É uma ótima idéia. Talvez por mais ricos que sejam, talvez não se importem com o que você tentar dizer. Mas eu acredito em você, Steve. E você tem razão. Pode acreditar, mas realmente ajudei três pessoas, que ajudaram três pessoas. -ela disse, sorrindo. Após uma pausa, perguntou:
-O que acha de irmos até o parque de diversões logo ali? -insinuou, mostrando um caminho que levava a algumas luzes no horizonte.
-É claro, tudo bem. -afirmou o garoto.
Caminharam entre os paralelepípedos, de mãos dadas. Isso porque, da primeira vez que se seguraram, não queriam mais soltar. Ao chegarem no parque, Steve insistiu para que pagasse a passagem de Mary, que aceitou. Já eram mais de 22 horas, e constantemente vinham brisas congelantes. Juntos, caminharam por algumas atrações. A primeira, Mary insistiu para que Steve participasse. Ele deveria apenas acertar alguns patos de borracha, para que recebesse os tickets. E os conseguiu. Em seguida, compraram alguns algodões-doce, encostaram nas grades de um brinquedo, e se divertiam com os transeuntes que passavam.
-Está vendo aquele palhaço desajeitado e mau-humorado? Olhe como ele torce o nariz e faz careta. Deve estar pensando: "Eu não agüento mais meu chefe! Eu vou pedir demissão e mandá-lo plantar batatas." Coitado! Ele é o melhor plantador de batatas dessa cidade. Faz anos que repete a mesma coisa. -dizia Steve, e caíam nas gargalhadas.
-Está vendo aquela mulher toda embonecada, tentando equilibrar-se naquele salto enorme? Olhe lá. Como ela anda torta! Quase caiu! Nunca ninguém olhou para aqueles saltos, mas ela não desce deles. Deve estar pensando: "Quem será que está me admirando?!" - ela disse.
-Ela ficou mais de duas horas no espelho, e nem o próprio namorado repara nela! -ele completou, e os dois caíram na risada. Após algum tempo em silêncio, quando já não havia tantas pessoas caminhando pelo parque, Mary perguntou:
-E então, senhor Steve, o acha mesmo que o Passe Adiante vai dar certo? -disse, colocando um pouco do algodão doce que restava na boca dele.
-Bem, -ele disse, depois de engolir o doce. -Eu li muitas coisas. Pretendo mostrar à todos que, violência gera violência. Os fracos julgam e condenam. Os fortes perdoam e compreendem. Se eu provar isso no Passe Adiante, sei que dará certo. Construí amigos, enfrentei derrotas, venci obstáculos, não me deixei abater. -disse orgulhoso.
-Que profundo! -ela sorriu.
-Obrigado.. Obrigado mesmo, é por estar comigo esse tempo todo. -agradeceu.
-Não há de quê, Steve.
E com o passar dos minutos, estava um frio torturante. Mas apesar de Steve insistir em dá-la sua jaqueta, ela não aceitava. Seu corpo tremia, mas apenas recusava, até que, finalmente, aceitou.
-Você está linda! Fique com ela. -ele disse.
-Ah.. Obrigada.. -respondeu, envergonhada.
E então se silenciaram. Steve olhava atentamente para o céu, e percebera como as mãos da garota estavam geladas. Pensava em tantas coisas, que muitas resolveu guardar para si mesmo. Não existia nenhum outro lugar onde os dois gostariam de estar. E quando si deram conta, o parque estava para fechar. Caminharam até a bancada para trocar os tickets por algum prêmio, e Steve escolheu um grande Teddy Bear. O entregou à Mary. Que sorriu meio desanimada. Caminharam de volta para o hotel, e durante o caminho pelo campo, ela continuou:
-Sei que vai ser um ótimo advogado..
-Sério? -admirou-se.
-Sim, você tem jeito pra coisa. Sua mãe vai se orgulhar.
-Obrigado, mas acho que não poderia seguir em frente sem você. -ele disse, repentinamente. E fizeram uma pausa. Ele segurava suas mãos, e ela o olhava nos olhos, sonolenta. Em seguida, retirou a jaqueta, e o entregou. Porém, ele não aceitou.
-Fique com você! Me entregue amanhã.
-Não, eu.. Eu não sei se vamos nos ver amanhã. -ela disse, cabisbaixa.
-Como? -espantou-se.
-É.. Eu e minha família vamos para Irlanda.. -completou, com os olhos lacrimejando. -Fique com isto - continuou, entregando-lhe um colar com a letra "M". -Pra garantir que nos veremos de novo..
-É claro que vamos nos ver de novo. Fique com a minha jaqueta, e considere no mesmo propósito.
Cabisbaixos, de mãos dadas, pensavam no quanto queriam um ao outro. Até que ela levantou a cabeça, e disse:
-Não há nada no mundo que eu queira mais do que ver você outra vez, Steve..
Entreolharam-se, e ele a tocou com as duas mãos no rosto. Mary chegou bem perto dele, e tornou a beijá-lo, agora nos lábios. Quando se afastaram, a luz do luar enfeitiçava os dois como se o mundo tivesse desaparecido.
Já de volta em Aekea, Steve não prestava muito atenção às aulas. Estava desanimado sabendo que não teria Pierre, e Mary por perto.
-...porque Linnê chamava esse grupo de criptogramas, sendo que "cripto" significa "escondido", ou "obscuro". Daí nós falamos em "casamento escondido", "personalidade obscura". -dizia o professor de biologia. Todos estavam copiando a matéria da lousa, porém o garoto não prestava atenção, olhando para o nada. -Steve? -chamou-lhe atenção, preocupado. -Você está bem?
-Estou. -respondeu, voltando a escrever no livro.
O professor ficou um tanto apreensivo, e continuou a dar aula. A falta de pessoas queridas fazia com que o garoto passasse os dias sem propósito de sair da cama. Não prestava atenção nas aulas, pois passava parte do seu tempo pensando se veria Mary mais uma vez. Ou se ainda poderia agradecer a Pierre por sua ajuda em matemática. Andava pelos campos, trilhas, corredores da escola e não falava com ninguém. Estava obscuro. Seu coração angustiado.
Saindo de volta para o dormitório no mesmo dia, um dos monitores anunciava aos alunos que recebiam postagens.
-... Jean Renné, ... Peter Travers, ... Steve Bronski ..., Kate Morrison ...
Ao escutar, Steve se admirou. Nunca recebera uma carta no período em que esteve em Aekea. Acreditou ter sido sua mãe. Caminhou até o monitor, retirou sua carta, e seguiu para o dormitório. O monitor, desconfiado, foi até Karl, que estava próximo, e o avisou sobre o estranho garoto ter recebido a carta. Aproximou-se de Abigail, e sussurrou-lhe no ouvido:
- Bronski recebeu uma carta da Irlanda.
Com isso, Karl foi atingido por uma série de idéias. Conseguira tirar Pierre de circulação, e só faltava Steve para completar sua coleção de humilhados. Sorriu, e se retirou.
No dormitório, ainda de pé, Steve pegou a carta dentro de sua jaqueta, e a abriu. Reparou então, que não fora sua mãe quem escrevera.
Caro Steve.
Tudo o que eu vejo em você, não vejo em mais ninguém. Você me deixa em estado de emergência: Tão forte e tão fraca ao mesmo tempo. Não me leve a mal, é uma simples insegurança. Você me faz morder os dedos do começo ao fim, só de pensar que eu poderia te deixar ir assim. Acho que já percebeu que sou uma tremenda boba por você. Meu sentimento é o mais puro e verdadeiro que eu poderia sentir por alguém. [...]
De repente, bateram violentamente na porta. E pelo barulho que os corredores do dormitório faziam, aparentavam ser muitos garotos. Rapidamente Steve amassou a carta e jogou atrás do criado mudo. Em seguida, um garoto alto abriu a porta num único movimento e ficou a frente de Steve. Então, mais três apareceram e começaram a revistar loucamente o quarto. Eram Karl e os vice monitores.
-Inspeção. -disse.
Steve, sem mover um músculo, ou mudar sua respiração por conta do ódio e dor, apenas encarava Abigail. Estava cansado sobre o orgulhoso que não desistia trazer mais dor ao seu coração. Os garotos mexiam em todas as gavetas e portas de armário. Olhavam em baixo das camas, e mudavam tudo de lugar. Até que um deles encontrou o papel amassado, e o entregou à Karl. Vitorioso, o garoto desamassou-o e começou a ler.
-Você é pior do que eu esperava! -disse seu rosto pronunciando um sorriso maléfico. -"Me segure em seus braços, e me balance como o mar.", "Acho que não nos veremos novamente." - lia em voz alta o garoto, com gargalhadas na garganta. -Eu também acho. A vadia te largou e foi para a Irlanda! Isso sim é ter dinheiro. Quando o reitor ler isso, você será expulso. -completou, retirando-se levando a carta, junto com os outros garotos, deixando Steve no quarto, de punhos fechados. Desanimado, suspirou, e sentou-se na cama bagunçada. Adivinhou, que de certa forma, o que ainda não havia lido da carta, comprometia-o, levando-o à expulsão. Pensou no quanto sua mãe se desapontaria. Mas ele havia prometido. Estavam no fim do ano, e faltavam apenas alguns dias para que seu último acabasse. Não podia terminar assim, batalhara tanto por nada? Não, não seria assim que tudo acabaria. Repentinamente, passou o olhar para a cama vazia de Pierre, e percebeu que o travesseiro estava alto de mais como de costume. Havia algo maior embaixo. Levantou-se, e foi até a cama. Num movimento rápido, retirou o travesseiro e percebeu que ali estava um enorme livro. Em sua capa, estava escrito O Código Penal. Percebeu então que poderia ser algum presente de Pierre. As leis de uma escola não devem ser mais altas que a de um país. - pensou.
Mais tarde na última aula de biologia, o professor entrara na sala rapidamente. Antes que todos se sentassem, chamou desapontado a atenção de Steve:
-Steve, levante-se. O reitor o quer em sua sala. Agora.
O jovem se levantou, e cabisbaixo dirigiu o olhar para o professor, que lhe mandava uma expressão de "Boa sorte". Mal caminhou até a porta, quando lhe chamou de novo a atenção.
-Leve seu material. -terminou, virando o olhar para o nada, indignado.
Triste, o garoto pegou alguns livros e se retirou. Já sabia o que estava por vir. E por conta disso, sentia-se fraco. Fraco o bastante para não pensar positivo. No outro edifício, caminhou até o segundo andar, onde estavam várias secretárias digitando em máquinas de escrever. Ficou diante de uma delas, que lhe apontou à sala do reitor. Antes de entrar, respirou fundo. O velho homem estava observando à janela. Com a carta de Steve à mão, começou a insinuar:
-Se entendi tudo corretamente... Está tendo problemas desde que entrou em Aekea. -disse, sentando-se em uma enorme poltrona. -As regras da escola são bem claras quanto a esse assunto. Não tenho alternativa senão a de expulsá-lo sem direito a matrícula de outras escolas por um ano. -fez uma pausa.
O jovem, de pé frente a mesa do reitor, chorava dentro de si mesmo. Porém, seus olhos insinuavam outra coisa. Insinuava vontade de por um fim a dor que tanto o torturava.
-Gostaria que se retirasse daqui depois de amanhã, por volta das 15 horas. De acordo? -terminou.
Interrompendo, Steve insinuou:
-Pode me devolver a carta?
-O que vai fazer? -perguntou, bufando.
-Quero o endereço dela. Gostaria de escrever para ela.
-O melhor que tem a fazer, é esquecê-la. -terminou, guardando o papel em sua gaveta.
Com isso, o garoto se retirou, com os olhos lacrimejando de raiva.
No dia seguinte, de acordo com o reitor, seu último, Steve estava no salão, preparando-se para o almoço. Porém, sua cabeça estava longe. "Fique sabendo que foi o melhor amigo que tive." "Tudo o que vejo em você, não vejo em mais ninguém.". Interrompendo seus devaneios, antes que lhe servissem um prato saboroso de macarrão e batatas, Karl gritou:
-Pare! Somente membros da escola podem comer aqui.
Após isso, Steve se levantou, e lentamente se retirou do salão. Todos o observavam apreensivo.
Em Barton, Anna preparava cenouras atentamente para sua salada. Estava feliz, pois sabia que em três dias, seu filho estaria se formando. Até que foi interrompida pelo telefone. Atendeu-o, e percebeu que havia uma respiração ofegante na linha. Presumiu ser Steve. Porém, antes que dissesse algo, desligaram na outra linha. Determinado, o garoto havia desligado o telefone, e se retirado do edifício. Sua dor deveria acabar.
No campo, conversando com um grupo de amigos, Allan falava sobre o plano de Steve. E todos debatiam sobre isso.
-Acho que ele tem razão. Vamos mostrar a eles. -disse uma garota entre o grupo.
-Com certeza! Somos nós quem fazemos Aekea. -disse um jovem.
E com isso, uma multidão se formava no campo. Mais jovens se aproximavam e protestavam. Percebendo a bagunça, Billie e alguns monitores tentaram calar à todos, sem obterem sucesso.
-Poderiam calar essas bocas e caçar algo pra fazer? -berrou.
Todos no local o encararam. Aquilo acabou gerando um silêncio assustador para o garoto. Até que uma jovem exclamou:
-E quem é você pra nos dizer o que fazer?
-Sou vice monitor. Como tradição e regras de Aekea, tenho poder sobre vocês. E pela minha autoridade darei detenções à todos aqui. Agora vão embora. -disse, quase recuando.
-Não tem autoridade para nos mandar embora. O campo é de todos que pagam para estudar aqui. -disse Allan.
-Sim, e pagamos muito pra sermos humilhados! -gritou Johan, no meio de todos.
Com isso, a multidão avançou lentamente para Billie, que recuou. Sem saber como agir, foi procurar por Karl, seu grande amigo. Caminhando pelos edifícios, o encontrou, fumando um charuto sentado em uma cadeira com os pés na mesa.
-Karl, estamos com problemas. Não estão ouvindo nossas ordens!
-Aham. Olha, isso não é problema meu. Vire-se, vou até o estábulo. -disse, se retirando.
Sem graça, o garoto foi para seu quarto. Não sabia como lidar, já que por tantos anos era Karl quem lhe dizia o que fazer. Sentiu-se um fantoche.
Eram 17 horas quando há aproximadamente três quilômetros dali, Abigail praticava seu esporte favorito. O hipismo. Praticava o esporte melhor do que ninguém. Por isso sempre fora orgulhoso de si mesmo. Seu pai, um homem rico, não se cansava de investir no jovem garoto. Por muito tempo, Abigail vencia campeonatos em diversos estados do país. Sentia-se o dono do mundo pelo dinheiro do pai, e o orgulho nas ferraduras de seu cavalo. Estava levando seu animal ao estábulo, por uma estrada que havia entre a floresta. Diferente dos outros dias, este estava silencioso demais. Deixou o cavalo próximo a uma árvore, e ficou observando a sua volta. Seu coração batia acelerado. Quando então, ao avistar o olhar de volta para o mesmo, tomou um susto. Havia um garoto, segurando um enorme galho de árvore. Seus olhos emitiam uma luz estranha. Azul, e vermelho. Sua respiração era forte e fazia mais barulho que a do próprio cavalo.
-Agora somos só nós dois, Karl. -disse, com uma voz fria, e assustadora. O dia estava escurecendo, e com o passar dos segundos, aqueles olhos estranhos brilhavam mais. O ar na atmosfera era tenso, além de sua respiração ofegante, só se escutava alguns grilos, e via-se vagalumes no alto. -São dois quilômetros até o estábulo, e a escola fica ainda mais longe. -disse, com uma voz diferente, mais grossa, se aproximando. -Se quiser, pode tentar correr. Você é razoavelmente rápido. -fez uma pausa. O coração de Karl batia ainda mais forte e rapidamente. Seu corpo estava paralisado. Sentia-se sem saída. -Mas garanto que depois dos 100 metros eu te alcanço. -completou.
-O que quer? -perguntou Abigail, com a voz trêmula.
-Fique de joelhos - disse o garoto.
-Você está louco.. Acha que..
-DE JOELHOS EU DISSE! -interrompeu o jovem, se aproximando violentamente, e ameaçando acertar-lhe com o enorme galho. Seus olhos brilhavam ainda mais, agora que Karl podia enxergar mais perto. Num movimento único, ajoelhou-se. Assustado, pela voz diferente, e os olhos brilhando do garoto, perguntou:
-O que você quer? Dinheiro? Eu te dou 100 dólares!
-100 dólares? Você só vale isso orgulhoso de nada? -seu olhar e sua voz deixavam o local ainda mais assustador.
-Eu te arranjo amanhã. Palavra de honra de nobre! -implorou.
-Palavra de honra de nobre? -fez uma pausa. -Onde estava sua honra quando acabou com Pierre? E quando me surrou mesmo eu não me defendendo? -terminou.
-Você fez tudo pra me provocar! -gritou desesperado o garoto ajoelhado. Seus olhos lacrimejavam. -Não entende que fui obrigado a ser duro com você? -completou.
O garoto segurava para o alto o enorme galho. Reparou que, com a pouca luz que havia ali, a não ser a de seus olhos, nas mãos de Karl haviam alguns anéis. Determinado, disse:
-Tire esses anéis.
O garoto, desesperado, entendeu isso como um acordo. Tirou os anéis e o entregou, tremendo. Feliz achando que poderia se levantar, seu corpo estremeceu quando o outro começou a falar:
-Essas coisas servem para identificar o cadáver. -fez uma pausa. -Os dentes também identificam. Sei que não quer perdê-los.. -disse, indo até as costas de Karl. Sem que o mesmo pudesse enxergá-lo. -Mas garanto que não vai sofrer muito.
-Está louco?! Pega prisão perpétua por isso! -argumentou Abigail, quase chorando.
-Já pensei em tudo. Não terão evidências pois queimarei suas roupas manchadas de sangue. Apenas Pierre e Mary irão saber. Ninguém mais. -completou.
E num movimento único, levantou o galho para o alto. Karl, desesperado, gritou e se encolheu para o chão. Mas antes que o garoto o acertasse, começou a vomitar. Steve fez uma cara de pena, e largou o pesado galho no chão. Dirigiu-se ao rosto de Karl, que estava cabisbaixo, levantou-o, e disse:
-Achou mesmo que eu ia te matar? -disse, encarando-o. -Não sou como você, "monitor". Não mesmo. -terminou. Soltou o rosto de Karl, largou os anéis no chão, e seguiu caminhando pela trilha de volta aos edifícios. Deu alguns passos, e percebeu que o garoto não estava de joelhos. Estava encolhido no chão, chorando.
Horas mais tarde, Steve estava no dormitório, arrumando suas malas. De relance, olhou-se no espelho. Percebeu que havia algo errado. Seus olhos brilhavam. Aproximou-se e tocou seu rosto, assustado. Conforme ia se acalmando, seus olhos brilhavam menos, até que voltaram ao normal. Após ter arrumado suas coisas, deitou-se em sua cama, e adormeceu. No dia seguinte, acordou tarde, já eram mais de 15 horas. Olhando para o teto, pensava em muitas coisas. Como poderia ter um fim desse jeito? Como chegaria em casa, e como teria de explicar à sua mãe que havia desapontado-a? Isso o magoava. Pensou no que o reitor havia dito. Ficaria mais um ano sem se matricular, e puxa! Como isso iria mexer em seu futuro. Como poderia ser um bom advogado sendo que fez o terceiro ano duas vezes? Foi então, que se lembrou do enorme livro. Virou olhar lentamente para a cabeceira da cama de Pierre, e lá estava ele. Levantou-se rapidamente, e correu para o outro edifício. Precisava fazer uma ligação urgente.
Na sala do reitor, estavam todos os professores, monitores, e alguns ministros do estado comemorando. Era um grande dia. Aekea havia recebido o prêmio de melhor internato em quase 80 anos. Na mesa do reitor, havia várias garrafas de vinho e champanhe. Juntos a um enorme bolo.
-Caros colegas, estou comovido com essa gentileza. Agradeço imensamente em meu nome e de minha esposa.. -proclamava o reitor, quando o professor de biologia interrompeu:
-Temos um visitante.
Steve estava observando à todos na porta, determinado. Feliz por ter encontrado uma solução neste deserto enorme e gelado. Ao entrar, todos na sala observavam. Estranhamente, Billie e Karl não estavam presentes. Irritado, o reitor insinuou:
-Bronski! Ainda no colégio? -disse, segurando uma taça de vinho, se aproximando. -Pensei que tivéssemos concluído nosso assunto.
-Restou o assunto da carta. -interrompeu.
-Deixei as coisas bem claras.
-Existe uma lei referente ao serviço postal.
-Lei? Do que está falando?
-Meu direito à privacidade foi violado. Se o reitor ficar com a carta, estará cometendo um crime.
-O que está dizendo? -disse, olhando para os convidados presentes, envergonhado. -Quero que saia imediatamente da escola. Entendeu? -completou, segurando Steve pelo braço até a porta.
-Desculpe interromper essa reunião. -interrompeu um homem de paletó marrom, fumando um cigarro. Aparentava ter uns 30 anos, e segurava consigo um jornal.
-Quem é você? -perguntou o reitor.
-Meu advogado. -respondeu o garoto.
-Meu nome é Michael. -fez uma pausa, olhando para todos. -Bom dia senhoras e senhores. Bem, esse assunto envolveu muita gente. Meu cliente teve um direito negado. Conversei com um amigo meu, que é repórter.. E trabalha para esse jornal. -disse, mostrando-o. Falava com a autoridade de um rei. -Ele está interessado na história de Steve. Ele quer vir aqui e fazer uma reportagem com ele. Ir fundo no que aconteceu. Esse lance de regras e tal. Mas creio que esse tipo de publicidade mancharia a honra desta escola, não? Afastaria gente importante. -terminou, dando uma rápida tragada ao cigarro.
-Como pode ver, estou ocupado agora. Talvez possamos falar sobre isso.. -insinuou o velho.
-As implicações legais já estão bem claras. É uma questão séria. -interrompeu. -Steve, será que podemos evitar que a polícia venha aqui? -disse.
-Talvez. -respondeu o jovem.
Preocupado, o professor de biologia, disposto a ajudar o garoto, intrometeu-se na frente de todos.
-Desculpe, mas posso saber do que se trata?
O velho por sua vez, tentou se defender.
-Se eu não tiver acesso a todas as informações..
-Tenho certeza de que o reitor tem acesso às informações. -interrompeu Steve.
-Talvez existam certos fatos dos quais não estou sabendo. Gostaria de estar ciente de tudo. -fez uma pausa. -Aproveitem o bolo enquanto isso! -proclamou aos convidados, e virou se para Steve, encarando-o.
-A carta. Posso tê-la de volta? -disse Steve, determinado. Depois de muita conversa, o velho reitor acabou devolvendo-a. E acabaram num acordo. Steve teria a carta de volta, e não seria expulso. Finalmente conseguira fazer justiça para si mesmo.
No dia seguinte, o grande dia da formatura, os edifícios estavam tumultuados. Os professores ficaram de pé em fileiras, enquanto o reitor anunciava os alunos para que retirassem os diplomas. Enquanto isso, o professor Berg dizia ao velho microfone:
-Tenho certeza de que partirão para o jogo da vida.. Que é um jogo duro, orgulhosos de terem concluído sua vida, e assim iniciando outra.
Formaram uma fila de alunos, e os professores lhes entregavam os diplomas. Steve cumprimentou o professor de história, que lhe desejou sorte. Ao cumprimentar o de biologia, ele o parou:
-Steve, se encontrar com Pierre, dê um abraço por mim. -disse, sorrindo.
Cumprimentou o de filosofia, literatura, e todos lhe desejavam sorte. Até que cumprimentou Bergmann.
-Steve..-fez uma pausa. -Cuide-se. -disse o homem, sorrindo e orgulhoso pelo garoto.
De volta ao trem, Steve assistia novamente as árvores passarem por sua janela. Sentia-se livre. Depois de longas horas de viagem, chegou em casa. Sua mãe estava ao piano, tocando alegremente. Steve a interrompeu, colocando o diploma na frente. Contente, ela se levantou e o abraçou. Seu coração estava partido pelas saudades.
Na hora do jantar, ela o elogiava:
-Com essas notas você seria aceito em qualquer emprego!
-Mas teve "D" em comportamento. Em vez de melhorar, como na antiga escola, piorou. Qual a explicação?
Porém, Steve se silenciou. Estava feliz por ver sua mãe novamente, mas lhe veio a cabeça, de ter de conviver com esse homem novamente. Isso o perturbou. Passou então a encará-lo.
-Aquela vadia irlandesa? -continuou. -É, nós ficamos sabendo.
Firme na resposta, Steve disse:
-Ela trabalhava com a mãe em um hotel. E o senhor é garçom.
-Falamos sobre isto depois do jantar.
Já sabendo o que isso significava o garoto não aceitou. Continuou encarando. Irritado, o velho dizia:
-O que foi? Por que está me encarando? -Mas o garoto não moveu um músculo. -Não me encare assim! -gritou, levantando-se, e indo até o quarto. -Venha cá, vamos discutir.
Cabisbaixa, sua mãe apenas segurou a mão de seu filho. Que rapidamente levantou-se, indo até o quarto. O velho pegou um dos cintos de couro, e o preparou nos punhos.
-Vamos esclarecer isso. -disse, insinuando o cinto como um chicote.
-Não, pare! -disse a mulher.
-QUE INSOLÊNCIA É ESSA VADIA? -gritou.
Interrompendo, Steve gritou mais alto:
-AGORA PRESTE ATENÇÃO! Acabou! Eu poderia tentar dialogar mas com você não há outro jeito. Vá embora dessa casa. Entendeu?! -fez uma pausa, seus olhos começando a brilhar, e sua voz a engrossar. Tudo se silenciou. -Senão, daqui a meia hora, estará no hospital. Sem poder enxergar, com o nariz arrebentado, e os braços quebrados. E não vai contar a ninguém o que aconteceu. Vai dizer que caiu da escada. Se contar a polícia, eles vão ficar sabendo o que andou fazendo todos esses anos. Vai saber o que é sofrer. Vai gritar até desmaiar. Juro que te arrebento. Pessoas como você precisam ser destruídas. - terminou. Olhou para sua mãe, e disse:
-É a última vez que farei isso. Depois, nunca mais. -e fechou a porta. Virou o olhar sombrio para o homem, e determinado, fez o que devia fazer.
No dia seguinte, um dia ensolarado, e calmo, uma brisa refrescante batia ao rosto dos jovens. Pierre estava muito ocupado, já trabalhava, e tinha seu próprio motorista. É claro que, com a ajuda do pai. Vestia um belo terno, caminhava para o carro quando avistou alguém familiar no horizonte da rua, em uma bicicleta. O garoto se aproximou, sorrindo.
-O que vai fazer? -perguntou Steve.
-Você sabe, faculdade. -respondeu Pierre, sorrindo. -E você?
-Vou trabalhar num escritório de advocacia no verão. A propósito, preciso lhe pagar as aulas particulares que me deu né?
-Esqueça! -respondeu o garoto, sorrindo. -Somos amigos. Isso não faz diferença pra mim.
-Sei, porque é rico! -disse Steve, rindo.
Pierre olhou para o motorista e percebeu que era hora de partir, então deu um aperto de mão em seu amigo:
-A gente se vê Steve.
-Com certeza, Pierre.
O jovem caminhou até o carro, carregando na mente um futuro promissor. Partiu mundo afora, em busca de seu sonho. Quanto a Steve, caminhou até sua bicicleta, e lembrou-se da carta que Mary havia escrito. Retirou o papel do bolso da jaqueta, e tornou a ler, sob a luz do sol.
[...] E eu nunca vou te deixar. Tudo o que quero é você, você ficaria comigo? Pois eu apenas quero você como um amor para a vida toda. E quando eu vejo você, então sei que estará perto de mim. E quando eu preciso de você, sei que estará aqui comigo. Eu não posso esperar até o amanhecer. Sei que vamos erguer nossas cabeças e declarar independência, porque juntos, não estamos sozinhos. Quero realizar o seu sonho de mudar o mundo. E o nosso poder, é simplesmente poder mudar o NOSSO mundo de todos os dias. Não sei se ficarei mesmo aqui na Irlanda. Podemos passar alguns meses, mas acredito que iremos mudar e mudar, e mudar mais vezes. Mas eu prometo, não vou parar de lhe mandar correspondências.
Da sempre sua Mary Kingstone.
Ps.: Eu te amo. [...]
Ao terminar de ler a carta, o garoto se animou. Pegou o envelope, e olhou para o endereço. Sabia que não seria tão cedo que poderia partir. Mas levasse o tempo que fosse preciso, teria o dinheiro em mãos, e deixaria que os trilhos do destino o guiassem ao encontro de sua amada. Daria duro para ser um advogado. Pois afinal, seria a melhor forma de trazer a paz, e afastar as marcas da violência. Ao ler o que a garota havia escrito, sentiu mais apoio do que precisava, estaria determinado para fazer do mundo em que vivemos um lugar melhor. Eu tenho espírito, mas não sou um soldado. Pois quando tudo esteve perdido, tive minha batalha vencida. Por todas as coisas que eu fiz, não sou mais o garoto coração de gelo que costumava ser. É melhor seguir em frente. - pensou. Viajaria em busca da garota de sua vida. Atravessaria o mundo, mudaria o mundo. Pessoas como Abigail precisam ser combatidas. Pessoas como ele nunca deverão vencer. Nunca. Faria deste mundo, até sua última gota de sangue, um lugar melhor. E já estava na hora de começar, enquanto era jovem. Lição aprendida, e que as engrenagens voltem a girar. Apesar de tudo que lhe aconteceu, Steve se manteve firme, afundado nas profundezas da dor, não moveu um músculo. Afinal, violência gera violência. Os fracos julgam, e condenam, porém os fortes perdoam e compreendem.
Montou em sua bicicleta, e lentamente, pedalava descendo a rua. O sol que se formava no horizonte era perfeito. Muitas coisas eram planejadas em sua mente. Determinado, seguiu em direção às suas escolhas. Teria certeza de que elas modelariam seu destino sábio. Sabia que o passado de todos era como uma cortina de vidro. Mostraria à todos de que são felizes os que a observam para poder caminhar no futuro. Mas isto não seria um fim. Seria um novo início. Steve era jovem, e tinha certeza de que deveria estar preparado para saber que o mundo é feito de pessoas que batalham, e pessoas que desistem.
Passe Adiante, fim.