segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Passe Adiante Pt. IV

Capítulo 4
Vingança
"...que nem se mexia, ou relutava. o salão inteiro os observava..."


Já era tarde, e Steve estava estudando com Pierre. Antes, matemática era como um monstro de 7 cabeças, mas no momento, esse monstro estava perdendo-as, conforme Steve se dava bem com a matéria. Mas ainda assim estava com dificuldades. Eram quase 19 horas, e dos fundos do dormitório vinham uma gritaria insuportável. Podia-se ouvir gritos como: " Verme! Lute como alguém! Rasteje! " Acompanhados de dor, e humilhação. Os gritos vinham do ringue.

-Eu não consigo me concentrar, isso é muito complicado! -disse Steve.

-Calma, está vendo? -Pierre explicava detalhadamente.

Os gritos continuaram, permaneciam insuportáveis.

-Não dá. Não consigo desse jeito! -disse Steve, estressado com o som que vinha do lado de fora.

Largou o lápis na escrivaninha, colocou sua jaqueta e desceu. Ao chegar mais próximo do 'ringue', percebeu o quanto as pessoas queriam mesmo ver sangue. Havia vários garotos e garotas. Karl, e Billie estavam no centro, rindo e enchendo um pequeno garoto com tapas. Com os punhos fechados pelo ódio, Steve voltou ao dormitório, mas desta vez ao salão. Pegou o telefone, ligado à parede, e ligou para casa:

-Mãe? -perguntou.

-Steve? É mesmo você? Filho? -disse Anna.

-Ele está em casa?

-Não, seu pai foi para o restaurante, está muito ocupado.. mas..

-Ele não é meu pai. -interrompeu Steve.

-Bem, como está tudo com você? Fico feliz que tenha ido até aí.. Estive pensando em você.

-Eu não voltarei pra casa por um tempo.. Desculpe..

-Aconteceu alguma coisa? -disse Anna, preocupada.

-Não, não. Eu só tenho que estudar.

-Eu entendo.. Não está arranjando confusão, não é?

-Eu fiz um bom amigo, Pierre.

-Isso é bom, meu filho.. Fico feliz por você, fiquei sabendo que está indo tudo muito bem por aí mesmo..

No ringue, todos batiam palmas para Karl, e Billie. Eram reis com servos indignos. E se orgulhavam disso.

-Próximo homem, Steve Bronski! -gritou Karl.

A multidão foi a loucura. Karl, o orgulhoso, acenou com as mãos para que fizessem silêncio. Olhou para seu relógio de pulso, e confirmou:

-Parece que o ceguinho não teve coragem para vir aqui.

Todos iam mais a loucura. Berravam, e batiam palmas gritando. Eram a platéia que mais queriam ver sangue, e nada melhor do que presenciar o medo de alguém que não comparece. Era o que pensavam.

Mais tarde, Steve e Pierre estavam no quarto. Steve estava estudando, e Pierre, lendo um de seus livros de ficção científica.

-E então, qual seu resultado? -disse Pierre.

-Se x é igual a dezoito, então y é igual a menos três. -respondeu Steve.

-Parabéns, você está indo bem.

-Inspeção! -gritaram de repente dois garotos, entrando rapidamente no dormitório.

Empurraram Steve e Pierre para o corredor, junto com outros garotos no dormitório. Jogavam tudo no quarto de um lado para o outro. Bagunçaram as gavetas, viraram as camas, e saíram. Então, todos ficaram encostados nas paredes. Então, Karl apareceu pela porta do dormitório, andando entre todos, com um sorriso orgulhoso no rosto, como de costume. Andou até Steve, e olhou-o nos olhos. Virou-se então, e partiu. No dia seguinte, após as aulas, Steve discutia com Pierre e Johan, sobre uma revolução da qual pensara.

-Karl não pode permanecer assim. Não posso deixar que nos trate como lixo. -disse.

-Mas não podemos fazer nada!-disse Pierre.

-Sim, podemos ser expulsos, e este é um lugar caro.

-Por isso mesmo, pagamos toda uma fortuna para sermos humilhados? -disse Steve.

Os dois garotos concordaram. Mais tarde, na hora do jantar, Karl levantou-se, e foi ao centro do salão.

-Escutem, por favor! -exclamou. -O conselho de monitores vai se reunir hoje após o jantar. E aqueles que estão convocados para comparecer: "Franguinho". "Boneca". "Gordinho". -prosseguiu, dizendo os nomes. -E..

"Ceguinho". -terminou. Ao ouvir tais palavras, Steve teve plena certeza de seus planos. Por trás de seus óculos, seus olhos olhavam indignadamente para o nada. Todos no salão davam risadas e badernavam, até que Karl acenou para silêncio. Algum tempo após, Steve e os demais escolhidos foram ao edifício central, onde geralmente se organizavam papeladas escolares, onde os diretores permaneciam. Primeiro, foram chamados todos juntos. E Steve por último. Ao passar pelos garotos, pôde se ouvi-los resmungar. Steve entrou na sala, onde estavam os monitores, todos sentados ao redor das paredes, arrumados com ternos, e Karl, sentado no centro. Ao entrar, um deles acenou para Steve, pedindo que se sentasse. Mas Steve apenas se apoiou com as mãos por detrás do banco.

-Vamos ver as acusações.. -iniciou Karl. -O acusado recusou-se cumprir com ordens. Recusou engraxar alguns pares de sapatos... Estou correto? -completou.

-Sim, está. -respondeu Steve, firme.

-Sente-se direito! -exclamou.

-Vai mudar alguma coisa se eu me sentar ou não? -respondeu astuciosamente Steve.

-Por desacatar o conselho.. Ficará sábado e domingo fazendo trabalhos forçados. Tem alguma coisa para dizer em sua defesa? Não sabia que deve obedecer aos monitores? -insinuou Karl, com um olhar falso de ajuda.

-Sabia, mas Billie me mandou engraxar sapatos imundos. Em minha opinião ele estava querendo me humilhar.

-Não precisamos nos aprofundar mais nisso. Além disso, foi insolente frente ao conselho. Portanto, está punido com... Mais dois fins de semana de detenção. Isso é um aviso, você entendeu? -disse, fechando os punhos na mesa.

-Obedecerei às ordens do conselho para não ser expulso.. Mas não polirei os malditos sapatos imundos de Billie.

-Não sei mais qual é a vez em que usa esse linguajar. Pare de se esconder por trás destes óculos. Por isso, recebe mais um fim de semana de detenção. E queremos um pedido de desculpa.

-Mas já recebi minha punição.

-O conselho o pune com quatro fins de semana de detenção e dois sob custódia domiciliar. Vai pedir desculpas?

-Não.

Um silêncio tomou a sala. Karl olhou para alguns dos monitores e voltou o olhar para Steve. Orgulhoso, disse:

-A punição agora é de dois fins de semana de trabalhos forçados e oito sem sair do quarto por desacato ao conselho e conduta desrespeitosa. Pode ir.

O garoto acenou com a cabeça, e se retirou. No dia seguinte, Billie apareceu com as punições. Estava sol, porém aparentava chover. Aproximou-se de Steve e os garotos.

-"Franguinho", vai livrar o campo de folhas secas. "Boneca", limpe os corredores. "Gordinho" pinte os mastros. Podem ir. -disse. -E você vem comigo, "Ceguinho". -completou, encarando Steve.

Caminharam até os arredores do campo. Então, Billie parou, e ordenou:

-Cave um buraco. Exatamente 1metro x 1metro x 1metro. E não mexa um músculo até eu voltar. Capiche? Ao trabalho. -disse, lhe entregando a pá. Após algumas horas cavando, Steve estava exausto. Seu corpo lhe pedia com dores para parar. Então, Berg, o técnico, que costumava correr aos arredores do campo, parou ao seu lado.

-Parece que.. Os americanos estão usando pesos, no nado. Essas coisas. Para, ganhar massa muscular. Dizem que ajuda na velocidade do nado.

-Então.. Isso é um bom treinamento? -disse Steve, em tom de deboche.

-É de certa forma. Se eu fosse você.. Apressaria-me. Está para chover.

O tempo passou, e Berg estava certo. No frio congelaste da chuva, Steve permaneceu de pé, ao lado do buraco que cavara. Então, Billie, segurando um guarda-chuva se aproximou:

-Ótimo! Bom trabalho. Sabe o que vai fazer agora? -continuou orgulhoso.

-Não, o que? -perguntou, indignado.

-Vai fechá-lo, antes que alguém caia e se machuque. -respondeu, rindo.

Na chuva gelada, Steve levantou a pá de maneira pouco ameaçadora, e a fincou na lama. Billie olhou de forma sem graça, e se retirou. Algumas horas mais tarde, já no anoitecer, Steve voltou esgotado para o dormitório. E lá estava Pierre.

-Johan me disse que eles vão aparecer aqui hoje. Não sei o que vão fazer, mas não vai ser legal. Como você está?

-Estou bem, obrigado. Como assim aparecer? Outra bagunça de quartos?

-Não, parece que dessa vez vão fazer algo mais sério.

-Droga.. Que horas acha que vão aparecer?

-Acho que meia-noite. Ou umas três da manhã. Mas são impacientes, então, meia noite.

-Então precisamos nos preparar. -disse Steve, posicionando o criado-mudo na porta.

-Do que você tem mais medo que façam? -perguntou Pierre.

-Bem, ser expulso, isso vai prejudicar meu futuro. -respondeu.

-Não isso, eu digo.. Com você.

-Bem.. Que me desfigurem.. Quebrem meu nariz, acabem com meu rosto. E você?

Algum tempo depois, nervosos, perceberam que era quase meia-noite. Silenciaram-se, e apagaram as luzes. Nunca antes o escuro e o silêncio fora tão assustador. De repente, pôde se ouvir passos leves no corredor do dormitório.

Steve e Pierre, atentos, levantaram-se e preparavam-se para o que vinha. Ouviram alguns sussurros, e num movimento único, a porta se abriu, e era Karl. Carregava um balde sujo de barro, e esterco de cavalos. E gritou:

-UM PRESENTINHO DO CONSELHO! -virou o balde para o quarto dos garotos, e saiu correndo com gargalhadas.

O cheiro era insuportável. Depois de quase duas horas limpando o quarto, o cheiro era fraco, mas permanecia. Steve e Pierre estavam ficando loucos. E Steve tomou sua decisão. Teria vingança. Encheu o balde novamente com a sujeira que lhe fora jogada, e saiu do dormitório. Foi até o edifício dos monitores, silenciosamente. Ao encontrar o quarto de Karl, e Billie, já tinham em sua mente seus planos. Abriu a porta cuidadosamente, e retirou das tomadas todos os abajures. Karl e Billie dormiam em sono profundo. Steve, pretensioso, respirou fundo, e virou o balde por cima do rosto de Karl. De instante o garoto começou a gritar pelo barro gelado, e a gritar. Steve correu para fora do edifício, em direção ao seu quarto. Billie se levantou, e tentou acender os abajures, mas não acendiam. Caminhou até a parede e acendeu a luz. Karl estava ensopado, e devido ao cheiro, passou a vomitar. E Billie não moveu um músculo para ajudar.

No dia seguinte, Steve foi até o ginásio para nadar. E lá estava Berg. Nadou por quase duas horas. Até que o homem lhe chamou a atenção:

-Você se sente em casa na água, não é? Sabia que haverá um campeonato escolar?

-Ouvi falar. Por que se chama campeonato Stracci?

-Bem, o pai de um dos garotos doou o prêmio.. E obviamente espera-se que o filho seja o vencedor. Mas acho que você tem chance de ofuscá-lo.

-Não tenho certeza disso.. -disse Steve, cabisbaixo.

-Steve, sabe qual é a pior coisa para um professor? -fez uma pausa, olhando para Steve. -É ver um talento ser desperdiçado. Não vingar. Nunca fique assim, mesmo que, ao vencer, ganhe um inimigo. -continuou.

-Já tenho inimigos.. -respondeu.

-Mostre a eles que é bom, numa batalha justa. Mostre que não precisa ter o sobrenome do patrocinador para ganhar o campeonato. Pense como seria bom para a classe baixa ter seu próprio campeão..

-Acha mesmo? -duvidou Steve, sorrindo.

-Mas é claro! Nunca aconteceu! O esporte é democrático, Steve. Pense nisso. -disse, e se retirou.

Naquela mesma tarde, a caminho do jantar, Pierre e Steve discutiam.

-Karl não vai esquecer o que você fez. Mesmo não tendo provas, ele sabe.

-É, eu sei. É melhor enfrentá-lo logo, e pôr um fim nisso.

Após a oração, e ao se sentarem, Steve fingiu estar sentindo um cheiro desagradável, e comentou:

-Que estranho, não estão sentindo um cheiro de merda? Nossa! Tem alguém aqui que não toma banho.

Ao ouvir tais palavras, Karl bateu com o punho na mesa.

-Não está sentindo o cheiro, Karl? -disse Steve.

-VOCÊ, VENHA CÁ! -gritou o garoto.

Definitivamente o salão estava quieto. Steve se levantou rapidamente, e se aproximou de Karl. Fingiu mais uma vez o mau-cheiro do garoto.

-Como você fede, cara. -disse.

Após isso, Karl lhe deu um tapa no rosto. Estava sendo humilhado na frente de todos do salão.

-Cara, até suas mãos fedem. -exclamou Steve. Firme.

Recebeu outro tapa. Com raiva, Karl lhe acertou um soco no rosto de Steve. Com isso, seus óculos escuros caíram. Revelando sua aparência. Todos no salão se espantaram. Mas Steve não se deixou abalar. Já estava na hora. De início, Karl ficou surpreso. Johan se preocupou com seu amigo, assim como Pierre. Não achava que Steve seria capaz. E sem reagir aos tapas.

-Assustado? -comentou Steve.

Levou outro soco, mais forte. E outro, e mais outro. Desde muito tempo, Karl foi preconceituoso. Ainda mais ao saber da famosa história de Steve Bronski. Ao saber que estava sendo humilhado por um garoto que considerava ser de extremo baixo-nível, ficou com mais raiva ainda. E prosseguiu com murros no rosto de Steve. Que nem se mexia, ou relutava. O salão inteiro os observava. Todos quietos, assustados com o que presenciavam. Steve já estava sangrando. E muito. Seu rosto estava sujo de sangue. E sua camiseta cheia de pingos enormes. Inclusive a de Karl. No silêncio do salão, só se ouvia fortes pancadas no rosto de Steve. Nada mais. Pierre e Johan viraram seus rostos. Não conseguiam ver o amigo daquele jeito. E os diretores, no salão ao lado, nem se importavam. Até que, uma das monitoras gritou:

-Pare! Está acabando com ele!

E com isso, Karl parou. Estava assustado, suando, e cheio de sangue. Só então percebeu que o salão todo o observava. E não com bons olhos, pois por detrás de seus olhares, garotos e garotas, estavam indignação, ódio. Ao perceber isso, Karl se retirou do salão, de cabeça baixa. Algumas semanas depois, como ordem do conselho, Steve foi obrigado a voltar pra casa, sob custódia domiciliar. Mas de forma alguma queria ver a cara de sua mãe e -principalmente- seu pai. Estava em seu olho direito, uma cicatriz que descia até as maças do rosto. Mas mesmo assim, teria de voltar. Ao sair do edifício central, Billie passou por seu caminho. E não perdeu a chance.

-Demônio.. -disse, firme, porém assustado.

Mas Steve não se deixou abater. Seguiu seu caminhou até a estação de trem, carregando sua valise. Durante o caminho de volta, observava pela janela as árvores no lado de fora. Após algumas horas, o dia já havia anoitecido. E misteriosamente, o trem havia parado em uma estação familiar. E não parecia que seguiria mais em frente por aquele dia. Saiu do trem, cansado, e com dores no corpo. Caminhou por familiares ruas de paralelepípedos. Em seguida, avistou um enorme campo de trigo no horizonte. Sabia aonde estava. Ao entrar no hotel, avistou Mary no balcão, como da primeira vez em que a tinha visto. Continuava bela. Seus cabelos escuros como a noite, e sua pele branca deixavam Steve nas nuvens. Sem contar o cheiro que ela tinha, de rosas. Andou até o balcão, e a cumprimentou.

-Olá.. Mary. -disse, tímido, e sorrindo.

A garota se virou, e ao perceber que Steve estava sem óculos assustou-se:

-Heey! O que houve? Cadê seus óculos? -disse, preocupada.

-Eu conto tudo mais tarde. Poderíamos conversar?

-Claro, vamos até o terraço. Mamãe não poderá nos atrapalhar lá.

E subiram até o terraço. Sentaram-se sob a luz da lua, um ao lado do outro.

-Então.. O que houve com seu rosto? -disse a garota, tocando-o.

-Bem, estive estudando em Aekea, e..

-Deixe me adivinhar, Karl? Billie? -completou Mary, indignada.

-Sim. Como sabe? -disse Steve, espantado.

-Já estudei lá, conheço muito bem esses idiotas..

-É por isso que pensei muito, e cheguei a uma conclusão. Criarei um Passe Adiante.

-Passe Adiante?

-Sim. Não um passe adiante, mas O Passe Adiante. Preciso acabar com o ciclo daquele lugar. Sei que não conseguiria fazer sozinho, por isso tenho que passar adiante.

-Ah. Mas, passar exatamente o que?

-Acho que muitos naquele lugar já passaram pelas mesmas coisas. A melhor forma de "passar adiante", seria se uma pessoa demonstrasse que com violência -e sim diálogo- à mais três outras, tudo se resolve ao invés de criar um ciclo cada vez maior.

-Vou ajudar você. -ela disse, disse, encostando a mão na dele.

-Como? Se você ainda estivesse lá.. Mas não está. Como vai fazer isso? -respondeu espantado.

-Não é só Aekea que precisa abrir os olhos Steve. É o mundo. -disse, sorrindo.

-É, tem razão. Obrigado Mary.

Após algum silêncio, ele continuou.

-Sabe, parece que haverá um campeonato de natação amanhã. E parece que já programaram o vencedor.

-Você ousaria vencer?

-Se você estiver aqui torcendo por mim..

-É claro que vou estar! -ela respondeu, sorrindo.

Após uma pausa, ela comentou:

-Eu gosto muito dos seus olhos Steve, mesmo. Não deixe que zombem de você.

-Também gosto muito dos seus.. -disse, percebendo como aqueles olhos azuis que ela havia eram maravilhosos. -Quer dizer, é eu sei, eu não deixo. -disse, mostrando a cicatriz. Então, Mary o tocou novamente o rosto. Passava os dedos na cicatriz, que descia até as maças do rosto, porém, levou os dedos até os lábios.

-Eu queria muito ver você de novo.. -disse, envergonhada.

Então, Steve desceu sua mão, até as mãos garota, e as segurou.

-Sabe eu.. Eu fugi de casa por apenas um motivo. Não exatamente para conhecer o mundo, como sonhei. Mas, eu, eu queria encontrar um verdadeiro amor. E seria impossível encontrar no lugar onde vivi.. -comentou.

-Eu sempre imaginei que não fosse como os outros.. Sabe, diferente.

-Obrigado. -agradeceu Steve.

-Além desta noite, vai ficar conosco?

O garoto suspirou, não querendo nada mais do que isso.

-Bem, amanhã eu terei de voltar..

Ela pareceu decepcionada, mas sabia que ele estava certo.Nenhum dos dois falou nada durante um tempo.

Finalmente, Mary pegou a mão dele e o levou para fora do hotel, até os campos de trigo.

Ali, o campo estendia-se diante deles, iluminado por um luar pálido, através das nuvens que se afastavam.

Ficaram ali em silêncio, de mãos dadas. A noite ia ficando mais fria, uma brisa gelada tocava seus corpos. Os olhos da garota estavam fechados, e seus lábios entreabertos em um sorriso feliz. E Steve podia sentir seus próprios olhos ficando fechados. Então, chamou atenção de Mary:

Vagarosamente, ela abriu os olhos e virou-se para ele. O rosto de Mary estava lindo ao luar. Ela lhe deu um olhar sonolento.

-Sim..

Steve foi invadido por uma tristeza inesperada ao perceber que no dia seguinte voltaria para Aekea, sem ela.

-Quando você acordar, já terei partido. -fez uma pausa, com um nó crescendo na garganta.

Mary o tocou, e o beijou ternamente no rosto.

-Quando vamos nos rever? -ela disse.

Feliz, Steve respondeu:

-Não tenho certeza, mas em breve.

E foi isso. Ficaram sob o luar por alguns minutos, felizes por estarem juntos.

No dia seguinte, o campeonato se iniciara. Havia muitos alunos e professores no ginásio. Todos gritavam, e torciam.

Steve nadava o melhor que podia. Seus braços queimavam e estavam cada vez mais pesados. Mas com esforço, conseguiu vencer.

E orgulhou Berg com isso. Mas havia alguém que não estava contente com isso. Era Karl. Após as palmas de congratulações acabarem, e o ginásio se silenciar,

Karl olhava para Steve, ainda batendo palmas. Havia perdido a confiança do reitor quanto a programação.

No vestiário, descansava seus pulmões, até que outros garotos apareceram:

-Agora que você venceu o que vai fazer?

-Queria que eu perdesse? Seria mais esportivo desistir da prova. -disse Steve.

-Não tem a ver com esportividade. Ainda não entendeu? Estava programado. Você está em Aekea.

-Olá, rapazes. Só estou checando se tem alguém com confusão. -disse Berg, interrompendo, e fazendo com que os garotos saíssem. Caminhou até Steve, e comentou:

-Você foi muito bem, meu jovem. Continue assim, acabe com os cretinos.

-Agora que ganhei o que vai acontecer?

-Vai ser intocável. Prometo, é uma questão de honra. -e se retirou.

No dia seguinte, durante uma das detenções, Steve fora obrigado a ler alguns livros. E, ironicamente, os livros falavam sobre paz, e revolução. E isso fez Steve refletir no assunto. Está na hora. Preciso dar um fim nisso. A autoridade de Karl e Billie está para acabar.

Mais tarde, no mesmo dia, ficou procurando por Pierre, mas não o encontrava em lugar algum. Caminhando pelo campo, avistou um pequeno garoto, de alguma forma, lhe era familiar. Ao olhar em seus olhos quando esteve mais próximo, reconheceu no exato momento, lembrando-se do dia em que não conseguia estudar por causa das brigas no ringue. Resolveu iniciar o Passe Adiante:

-Hey! Como se chama? -exclamou, estendendo o braço.

-Allan. O que foi? -disse o garoto, em tom de voz arrogante.

-Você é o garoto que vi no ringue uma vez. Por que aceitou a briga? Por que não disse apenas não?

-Se eu não aceitasse seria um covarde, assim como você. Ceguinho ou demônio, tanto faz.

-E você conseguiu alguma coisa? Pelo que sei, ainda arranja confusão com eles.

-Olha, e se eu lhe der dinheiro? -disse, tirando dez dólares do bolso. -Vai parar de me atormentar? Afinal, eu sou rico! Quando sair daqui viverei minha própria vida.

-Não, não quero dinheiro. Você não entende? Quero te ajudar. -respondeu o garoto, pedindo para que guardasse a nota de volta.

-Não preciso de ajuda, não acabei de dizer que sou rico? Vou aprender artes marciais e então acabo com eles, fim.

-Me escuta, seu dinheiro não vai resolver nada. Certo, você acaba com eles, e depois? Isso não vai mudar a humilhação que você sofreu, cara.

O garoto silenciou-se.

-Violência gera violência. Se você se importa consigo mesmo, deveria ter compaixão. Se é tão rico assim, por que não muda isso? -continuou Steve. -Acredito que você também não ache este lugar uma maravilha. Ou você é conformista? -fez uma pausa. -É o que estou tentando fazer. Um Passe Adiante. Se você conhece mais pessoas que já passaram pelas mesmas coisas que você, que nós.. Faça o que estou fazendo. Ajude-as. Podemos juntos combater isso.

Após isso, o garoto refletiu consigo mesmo. Sabia que este estranho jovem de quem todos falavam pela escola estava certo. Após ficar cabisbaixo por algum tempo, respondeu:

-É... Olha, desculpa. Você tem razão. Eu.. -fez uma pausa, quase gaguejando. -Eu tenho alguns amigos. Vou falar com eles. Valeu, cara.

Cumprimentaram-se, e seguiram caminho. Steve sentia-se orgulhoso por isso. Até que fora chamado para o edifício dos monitores. Ao entrar na sala, lá estavam Billie, e Karl. E se espantou ao ver Pierre.

-Será que seu amigo pode torcer por você agora? -resmungou Billie, segurando um charuto.

-O que vai fazer? -questionou Steve.

E Billie, respondeu a pergunta tocando Pierre com o charuto. A dor era imensa, e Pierre gritava sem parar.

Ao ver a cena, sabendo que não poderia fazer nada, gritou, interrompendo.

-FAÇA ISSO EM MIM, COVARDE!

E Billie, sem saber o que fazer, olhou para Karl, esperando uma resposta. Largou Pierre e caminhou até Steve.

-O quê? Então vamos ver se dói o tanto que você acha que dói.

Com ódio nos punhos e nos olhos -que desta vez não estavam a se esconder- Steve encarava Billie nos olhos, esperando.

E Billie, lentamente encostou o charuto no peito de Steve, que nem se mexeu, ou resmungou. Billie olhava assustado para Steve, e Steve, guardava a dor para si mesmo.

Já saía fumaça do charuto na pele do garoto, mas ele nem se mexia, apenas encarava-o nos olhos. Até que o retirou, assustado.

E Karl, interrompeu:

-Quero você, Pierre, no ringue amanhã, às 19. Agora vão. Mais uma coisa, -olhou para Steve.- Se todos seguissem as regras, seria mais fácil.

Só porque você se acha acima da lei, estamos punindo seu amigo. Pense nisso. -E se retiraram. Para Pierre e Steve já estava claro. Mudaram a tática.

Karl é cruel demais. Já deve ter apanhado muito quando entrou aqui. É assim que o sistema funciona, não é? Aquele que vem de baixo sempre quer se vingar mais tarde. E assim o ciclo continua. Pessoas como Karl precisam ser combatidas. Pessoas como ele não podem vencer. Nunca. É assim que deve ser. -pensou Steve.

No dia seguinte, Pierre não se escondeu. Ás 19 horas no ringue, lá estavam. A platéia, os guerreiros e o coitado. Zombavam dele sem precedentes. Até que Pierre deu um murro certeiro no rosto de Karl. E a platéia gritava seu nome. Com isso, Karl e Billie se sentiram traídos. Com a raiva, batiam ainda mais em Pierre.

Até que o fizeram rastejar.

-Rasteje, porco!

-Nunca! Covarde imundo! -gritava Pierre.

-Do que me chamou? -gritou Karl.

-COVARDE IMUNDO! -gritou Steve, interrompendo. Aquilo já o estava deixando mal.

-Repita! -disse Billie.

-COVARDE IMUNDO!

E com isso, Karl e Billie chutaram Pierre. Steve já estava com os olhos lacrimejando.

-De novo! -disseram os dois.

-Covarde imundo.. -disse Pierre, no chão.

Dessa vez, o chutaram no rosto, quebrando-lhe o nariz. E Steve sofreu muito por seu amigo.

No dormitório, observava Pierre descansar. Com o nariz enfaixado, desciam lágrimas dos olhos do pobre garoto.

E Steve tentou puxar assunto.

-Deu um bom soco lá.. Andou treinando a surdina? -disse, tentando sorrir.

-Não.. Foi apenas um golpe de sorte..

-Não se preocupe, vou conversar com Karl. Isso vai acabar. Tenho que cumprir minha prisão domiciliar. Nos vemos até amanhã de noite. Estou muito afim de uma garota.

Cuide-se, amigo.

-Cuidado Steve, namorar enquanto se estuda aqui leva à expulsão..-recomendou Pierre.

-É só jogar uma ponta de lápis no chão que você acaba sendo expulso! -respondeu Steve, rindo e se retirou.

Quando estava a caminho para fora do campo, até o trem, Steve foi parado por Billie.

-Um dos garotos não vai poder cumprir a detenção. Você fica no lugar dele, não precisa voltar pra casa. -E o levaram para o campo, novamente.

-Quero que estas estacas fiquem num raio de 2 x 2 metros quadrados. Devem ficar bem firmes. Entendeu? Ao trabalho.

Após completar a detenção, foi para a biblioteca da escola, e passou algumas horas, lendo sobre revoluções, e paz. Conseguiu descobrir muitas coisas.

Já era noite, quando Billie apareceu, o mandando para o dormitório. Steve saiu, e o campo estava escuro. Após andar alguns metros, uma multidão de garotos apareceu, correndo em sua direção. O agarram, e o deitaram no chão. Steve gritava, e tentava escapar, mas eram muitos. Quando viu-se por si só, estava amarrado nas estacas que ele mesmo havia prendido no chão.

-ME SOLTEM! SOLTEM-ME! -gritava.

-Espero que tenha colocado as estacas da maneira correta. -disse Karl. -Está com medo agora?

-Nunca vou ter medo de você. -respondeu, olhando de maneira assustadora

Para Karl.

-Comecem com a água quente! -ordenou o orgulhoso.

Então, quando menos percebeu, Johan estava sendo forçado a virar o balde em Steve. Por mais que recusasse, os garotos o ameaçava com tapas.

Acabou virando o balde. A água quente virando sobre o corpo de Steve era torturante. Gritou e gritou. A dor era imensa.

-Agora ele precisa se refrescar! -gritavam.

E mais uma vez, o garoto fora forçado. Virou o balde de água gelada no garoto. Que gritava e esperneava de dor.

-Agora vamos! Deixe-o aí! -diziam.

E foram embora levando Johan. Após alguns longos minutos, Steve já estava com poucos flocos de neve pelo corpo.

Até que Berg, o técnico, o ajudou. Levou-o para o quarto, dando-lhe chá quente. No dia seguinte, acordou se sentindo fraco, e percebeu que Pierre não estava mais em sua cama.

E Bergman estava sentado em uma cadeira ao seu lado.

-Olá Steve. -disse.

-Hey.. -respondeu o garoto, se levantando.

-Está melhor?

-É, um pouco.. Onde está Pierre?

-Bem, ele me pediu para que lhe entregasse isto. -e entregou-lhe uma carta, que dizia:

Caro Steve, quando estiver lendo esta carta, terei partido definitivamente de Aekea. Não me chame de covarde. Tentei agüentar o quanto pude. Gostaria de dizer algumas coisas, mas não tenho tempo. O táxi está chegando. Fique sabendo que foi o melhor amigo que tive. Se quiser, pode escrever pra mim. Escreva para a casa de minha mãe, em Durem. De seu amigo, Pierre.

-Ao ler a carta Steve se magoou.

Desanimado, deitou novamente na cama, com certa angústia, e raiva. Presas intensamente.

-Parece que Karl se excedeu desta vez.. Foi sorte eu ter te encontrado.. Não costumo correr à noite. Quanto a Pierre, lamento muito. De verdade.. -fez uma pausa. -A propósito, tive uma idéia de como faremos os treinamentos.

-Não vou mais nadar. -interrompeu o garoto.

-Do que está falando?! Não pode parar! -espantou-se o homem.

-Por que?

-Ué, você é o melhor nadador que esta escola já teve.

-Disse que eu seria intocável. Era uma questão de honra. -silenciou-se. -Mas não há honra nesse lugar. Sabe disso. Há muitas formas de infernizar uma pessoa.

Decepcionado, Berg se retirou vagarosamente. Na aula de biologia, o professor dizia aos berros:

-Pierre foi o melhor aluno que já passou por Aekea! Nós éramos amigos. Steve, por que não o defendeu?

Também é covarde como os outros?

-Se bater num membro do conselho, você é expulso.

O professor, irritado, bateu à mesa e foi para a frente da sala.

-O que nos difere de animais, é a nossa inteligência! E a moralidade! A capacidade de saber a diferença entre o bem, e o mal! Isso tem que parar.

Audacioso, Steve levantou o braço para falar. E o professor, lhe deu o prazer.

-O senhor não faz a menor idéia do que acontece aqui.

E o professor se desanimou. Retirou-se no mesmo momento. Determinado, na hora do almoço, Steve foi até Billie, que estava sentado junto à Karl, na ponta da mesa, e o desafiou.

-Quero você no ringue hoje, às 19 horas.

Ao ouvir, isso, o garoto se orgulhou. Depois do almoço, no dormitório, Steve se olhava no espelho. Já eram pouco antes das 19.

E novamente, perguntou a si mesmo:

-Quem é você?! Quem.. Sou.. Eu..?!-encarando-se, pensou em sua vida. "Fique sabendo que foi o melhor amigo que tive." "Eu só posso afirmar que você é o mal.

O mal na “forma mais pura.” Eu queria ver você de novo.." -lembrava-se. No quanto sofreu, e no quanto tudo deveria mudar. Preparava-se para o que iria fazer. Estava na hora de cumprir o que tanto havia lido, e discutido.

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