quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Passe Adiante Pt. II

Capítulo 2
Laços Familiares
"... o dia estava tranqüilo, e podia até mesmo sentir-se o cheiro dos campos de trigo..."

Já era cedo. Steve estava acordado e a luz clara do sol batia à janela. Olhando para o teto, esfregou os olhos e pôs-se a levantar. Pegou sua escova de dente, e caminhou pelo corredor do hotel até o banheiro. Entrou, trancou a porta e se olhou diante do espelho por alguns instantes.

-Sou Steve.. Steve Bronski.. -disse para si mesmo. Como resposta, o garoto do espelho não teve a menor reação.

Não importa o que Steve fizesse, ele faria a mesma coisa. Começou a analisar sua aparência. E percebeu que não era mais o garotinho da família. Steve nunca esteve muito satisfeito com seu visual. Mas o pior de tudo, tinha certeza, seus olhos não eram um par de maravilhas. A não ser por sua mãe, que com freqüência dizia que seus olhos eram abençoados. Porém Steve nunca compreendeu o porquê.

-Tem alguém aí? -gritou uma voz feminina do lado de fora no corredor, batendo na porta.

-Sim! Só um minuto, já irei sair. -respondeu Steve.

Escovou os dentes rapidamente, destrancou a porta e saiu para o corredor. Percebera então, que a garota que havia batido à porta era a mesma garota que havia visto no dia anterior, atrás do balcão. Olhou-a de relance, pediu licença ao passar por ela, e seguiu em direção ao quarto.

A garota vestia uma camisola amarela clara, e ao entrar no banheiro, levou um baita susto. Não podia ser verdade. Mas parecia que o jovem que acabara de passar por ela, tinha os olhos um tanto diferentes. Mas só podia ser tudo em sua cabeça.

Após alguns minutos, Steve sai do quarto, pronto para partir. Desceu as escadas em direção ao hall de entrada. Lá estavam a velha recepcionista, e a garota. Dirigiu-se até o balcão, e pagou a mulher.

-Obrigada, espero que tenha gostado daqui. -disse a velha, sorrindo e guardando o dinheiro.

Steve sorriu e mal guardou sua carteira quando, a garota chamou-lhe a atenção.

-Hey, você, por que não fica para o café da manhã? Por conta da casa, certa mamãe?

Steve olhou para a garota um tanto assustado, porém feliz. Nunca lhe fizeram uma gentileza como essa antes a ele. Porém, estava preocupado em relação aos óculos.

-Mas claro, pode ficar se quiser, meu jovem! -respondeu a mulher, sorrindo ainda mais.

-Não eu, não quero incomodar vocês, mas obrigado! -disse, acenando com as mãos simpaticamente.

-Ahh, eu insisto, você irá adorar as tortas e panquecas que minha filha faz. Por favor, aceite, meu jovem.

-Tudo bem, eu aceito, se você insiste.. Obrigado mesmo. -agradeceu Steve. Tinha que aceitar, afinal, deveria comer algo antes de partir para o mundo afora. E seria uma vantagem, pois não gastaria tanto do seu dinheiro.

Algum tempo depois, esperando na sala de jantar do hotel, Steve aguardava seu café da manhã ansioso. Mas, ficou um tanto preocupado. O que diria se lhe perguntassem dos óculos? Tinha que pensar em algo.

Logo em seguida, a mulher e sua filha chegaram à sala, servindo-lhe um delicioso prato com panquecas e suco de laranja. Sentaram-se à mesa, e começaram a comer. Logo instante, começaram a puxar assunto.

-De onde você vem jovem Steve? -perguntou-lhe a mulher.

-Venho de uma cidade pequena, longe daqui. -respondeu, mastigando as panquecas. Viajando a negócios. -completou.

-E o que o traz a outra pequena cidade? -interrompeu a jovem garota. -Negócios? Que tipo de negócios um jovem como você pode cuidar? -surpreendeu-se a mulher.

-Bem.. -murmurou Steve. O pegaram de jeito desta vez. O que poderia dizer?

Logo então, um velho senhor de idade de cabelos grisalhos entrou na sala de jantar. Estava aparentemente formal. Pendurou o casaco em uma das cadeiras da mesa, e sentou-se. De momento, olhou para Steve, e para sua mulher. Estranhou ver o jovem comer à mesa de óculos escuros.

-Olá papai.

-Olá Rob. -cumprimentaram-no.

Steve tentou mandar um sorriso simpático por trás dos óculos, porém não acreditou ser tão convincente.

-E quem é o garoto? -Este é Steve, papai. Apenas o convidamos para tomar o café da manhã conosco.

Steve estendeu o braço, e cumprimentaram-se.

-Pode tirar os óculos, filho? Não é muito educado.. -disse Rob desconfiado.

"Estou perdido." - pensou Steve. E estava mesmo. Fora encurralado. Sem saída. O que fazer?

-Oh, deixe-o em paz, papai. Steve deve ser algum ator de cinema, ou algum cantor famoso. Não é Steve? -disse a garota, olhando para o pai com um olhar insistente.

-Uhm? "Essa foi por pouco." - pensou.

-Mesmo assim, não é educado, filha. -respondeu o pai, retribuindo um olhar pior ainda.

"Jesus. Encurralado de novo. Já posso pular pela janela?" -pensava.

-Tudo bem. Eu tiro, não há problemas. -disse Steve tentando ser um homem de verdade, apesar de sua voz ter saído um tanto trêmula.

Foi então retirando lentamente os óculos. Olhou com uma expressão de ajuda para a garota com o canto de seu olho vermelho direito. "Por favor, me tire dessa.." - pensou. Já estava tremendo, mas arriscou a confiança na bela garota. Logo então, ela levou um susto. Estava certa, realmente ele tinha um par de olhos bem incomuns. Entendeu seu constrangimento, e soube controlar a situação.

-Papai? Não é seu assistente batendo à porta dos fundos? -disse rapidamente. Rob mal colocou um pedaço da panqueca na boca e correu atender o homem. Steve manteve os óculos no rosto. Já havia acabado de comer suas panquecas e estava ansioso para partir antes que o homem grisalho voltasse.

-Estavam deliciosas suas panquecas, Sra.. -percebeu então que não sabia o nome de ninguém, a não ser o do velho.

-Ahh, mas que tolice a minha não me apresentar. Me chame de Sra. Kingstone. -respondeu-lhe a velha mulher.

-E eu me chamo Mary! -interrompeu a garota, sorrindo. -Ah.. Bem, foi um prazer conhecer vocês, mas preciso ir. Um longo caminho me espera.

Despediu-se das duas. Caminhou até a porta, e olhou para Mary. Mandou um olhar de agradecimento, porém se esqueceu dos óculos. Sentiu-se ridículo para si mesmo, então acenou para ela e dirigiu-se ao hall de entrada. Abriu a porta e caminhou com as mãos nos bolsos do paletó pela rua de paralelepípedos. Estava nublado e frio. O dia estava tranqüilo, e podia até mesmo sentir-se o cheiro dos campos de trigo. O sol já estava nascendo. Dava para se ouvir o canto de alguns pássaros, e algumas carruagens. Mas faltava alguma coisa. Após andar alguns metros, Mary saiu do hotel carregando a pequena valise preta de Steve. Caminhou em passos rápidos até ele, e chamou-lhe atenção.

-Hey, Steve! Você esqueceu isso.. -disse Mary, entregando-lhe sua valise.

-Nossa! Obrigado.. Eu.. Ahm, como sou idiota! Como pude me esquecer.. Obrigado! -respondeu à Mary, rindo de si mesmo.

-Tudo bem, acontece.. -disse, com a mão na cabeça, sorrindo.

-Sabe.. Seus olhos.. -insinuou.

-É, são horríveis, eu sei.. -completou Steve.

-Bem, sei quem você é. Steve Bronski! Agora entendi o porquê de mudar o nome na hora do check-in. Sem problemas.. -fez uma pausa. -Você precisa mesmo ir ou gostaria de conversar mais um pouco?

-Na verdade, saí daquele jeito por causa do seu pai! -rindo, esperou que a garota entendesse. -Tudo bem, claro..

Caminhando juntos, a garota falava diversas coisas, porém, Steve não prestava tanta atenção. Carregava suas coisas enquanto caminhava. Olhando para o pescoço da garota reparou um bonito colar prateado.

-Gostou do colar? -ela fez uma pausa, segurando-o.

-Oh, sim. Muito bonito. -ele disse, sentindo-se como se tivesse saído de um transe.

-É "M" de Mary. Meio bobo, mas espero poder dar ele a alguém um dia.

Após caminharem por algumas ruas em direção à estação de trem conversando, Steve explicou a verdade para Mary. Algum tempo depois, discutiram sobre suas famílias.

-Sabe, meu pai sempre foi o "estressadão", se é que me entende. Ultimamente ele tem trabalhado muito, tenho medo em relação a isso. É provável termos de viajar bastante.. -disse a garota.

-Bem, eu não conheci meu pai. Mas já meu padrasto.. -"E como.." -pensou. -Viajando a negócios como eu, você diz? -disse, sorrindo. -Acho que também teria medo, se fosse deixar algo para trás.

-É exatamente isso. -interrompeu-o.

Após uma pausa, Steve completou:

-Sabe, obrigado por.. Ah, você sabe. Obrigado por evitar que tirasse meus óculos.. Obrigado mesmo. -completou.

-Tudo bem, eu entendo você..

-Entende?

-Bem.. De certa forma sim. Mas, isso não importa agora, o trem já está chegando.

E era verdade, Steve mal pôde notar, de que já haviam chegado à estação. E o trem já estava parando lentamente, preparando para abrir as portas.

-Acho que é por aqui que nos vemos então... -murmurou Steve. - Cuide-se, Mary. Nos vemos por aí, certo? -completou.

-Sem sombra de dúvidas! -respondeu Mary, sorrindo.

Despediram-se com um beijo no rosto. Ele entrou num dos vagões, e ela seguiu seu caminho de volta para o Hotel. Enquanto andava, olhou para trás avistando o trem partir. Virou de volta o olhar para seu colar. Pensou se de alguma forma, teria sentindo alguma atração pelo garoto. Ao chegar de volta ao hotel, sua mãe estava recolhendo os pratos da mesa, e seu pai terminando as panquecas. Subindo as escadas para seu quarto, foi interrompida por sua mãe:

-Eu gostei desse jovem, filha. Por que não fica com ele? -completou, sorrindo.

-Mãe!! -respondeu, envergonhada.

-Eu não sei. Me pareceu muito estranho.. Com certeza não é daqui. -disse o velho, terminando seu prato. -Mas se sua mãe disse que estava viajando a negócios.. Então o cara deve ter dinheiro.

-Se ele tem dinheiro ou não, não me interessa. Não ficaria com alguém por bens materiais ou coisa do tipo. -disse Mary, sorrindo orgulhosa. Decidiu por si que o assunto estava encerrado, e foi para seu quarto.

Sentado no desconfortável banco do velho trem, Steve sentiu-se feliz, e ansioso. Nunca antes fora tratado dessa maneira, ainda mais por uma garota. Mas sua ansiedade, no momento, era o medo de que isso não acontecesse nos dias seguintes. O medo clássico, o medo de ser rejeitado novamente. Mas teria de ser corajoso e seguir em frente. Ao lembrar-se de sua mãe, pensou: É uma nova chance que estou tendo de ser alguém. Não posso magoar minha mãe, tenho que seguir para esse colégio interno. Inclinou o banco para trás, e se acomodou. Olhou novamente para as árvores e velhas casas passarem constantemente pelo vidro, mas, desta vez, já podia enxergar algumas montanhas no horizonte. Estava mais uma vez, deixando que os trilhos do sul o levassem em seu caminho.

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